Desafios e recursos
para a solidariedade, a fraternidade, a reconciliação e a paz na era global.
1.
A globalização da solidariedade e da fraternidade
Em todo o processo pedagógico
que respeite a dignidade da pessoa humana, é crucial a orientação sistémica dos processos globalizadores tendentes a ser veículos de transmissão da solidariedade e da fraternidade, promovidas,
realizadas e intensificadas na cooperação, na colaboração e na interdependência. Queremos aqui afirmar que a globalização, com todas as facilidades que oferece a nível da
comunicação, contacto e interações de
todo o tipo, pode ser um grande recurso à disposição de
todos para promover a difusão-assunção livre e consciente da solidariedade, da caridade e da fraternidade, quer
a nível individual quer social. O mesmo se diga da reconciliação e da paz!
A fluidez de movimento, a inovação dos meios de intervenção e a comunicação digital permitem cuidar de quem passe por várias
dificuldades mesmo que se encontre a uma distância de
milhares e milhares de kilómetros de nós. Todos os gestos que temos vindo a
assistir um pouco por todos os continentes – por ocasião de calamidades
naturais como cheias devastadoras, terramotos, ciclones e crises de vária ordem – nos permitem acreditar que quando o detentor da tecnologia de
ponta tem um coração capaz
de se comover e envidar todos os esforços a fim de encontrar uma solução sem esperar por muitas telecâmaras, então essa ( a tecnologia) se torna eficaz e eficiente no bem. Quando, pelo
contrário, a tecnologia é detida por quem respira ódio,
cobiça e orgulho, ela se torna também eficaz na produção e
reprodução de violências e morte. E o pior acontece quando se pensa
que se possa dar cobro a essas emergências com armas na mão: por mais sofisticadas que essas sejam, elas atingem também o pacato
cidadão inocente que se encontra além do alvo preconizado; e não livram do terror o seu portador que se torna num eterno inseguro defensor-atacante
em duas alas do campo (direita e esquerda sem jamais se posicionar como meio-campista
nem como defesa central), com redondas falhas de passes para o ponta de lança e
com muitos auto-golos consentidos. Resultado: pânico
dos adeptos na bancada!
2.
Será que a segurança global gerou a insegurança global, que
invadiu o subconsciente colectivo de muitos Estados?
É preciso pôr as novas tecnologias,
facilitadas pela globalização, ao serviço da promoção da justiça, da paz, do diálogo e do respeito pelo
bem comum. Deste modo, as pessoas singulares e povos deste século XXI poderão aproximar-se uns dos outros despidos de todo o tipo de preconceito e
fobia, relançando pontes de reconciliação mais largas e
compridas.
Na globalização é
preciso promover iniciativas tendentes a sustentar o desenvolvimento integral
do homem e da mulher e a justa cooperação entre as nações. A propósito, João Paulo II no seu
encontro com o mundo sindical em Tor Vergata –Roma no ano 2000 disse que o fenómeno da globalização hoje deveria ser governado com sabedoria, que
visasse mesmo a “globalização da solidariedade”. Na
mesma perspectiva, nós falamos da necessidade de globalizar a paz,
globalizando antes de tudo a justiça social recorrendo a meios pacíficos.
Tal compromisso é actualmente reafirmado por Bento
XVI, quando na Caritas in Veritate
afirma che a ajuda internacional dentro de um projecto solidarístico que visa a solução dos actuais problemas
económicos deveria apoiar a consolidação dos sistemas
constitucionais, jurídicos e administrativos nos Países que ainda não beneficiam plenamente desses bens.
Mas é preciso não
limitar-se às ajudas económicas; ao lado dessas é necessário que estejam aquelas que visam reforçar as garantias de um Estado de
direito, um serviço de ordem pública e prisional eficiente,
no respeito dos direitos humanos e instituições
verdadeiramente democráticas. Neste caso, o Papa entende a globalização como um processo sócio-económico, mas acrescenta imediatamente que esta não é a única sua dimensão. Existe também o desafio da realidade de uma
humanidade que se torna cada vez mais interconexa, nós diríamos “quase interculturada”; e essa é constituida por pessoas e povos a
quem o processo da globalização deve ser útil transformando-se em factor de desenvolvimento, o que só é possível se cada parte (individuo ou grupo) assumir as
suas responsabilidades.
A superação das fronteiras não é apenas um facto material, mas deve concretizar-se a nível cultural nas suas causas e nos seus efeitos. A globalização é uma realidade humana e pode ser produto de várias
tendências culturais sobre as quais se requer fazer um discernimento.
Portanto, para fazer face ao desafio da globalização, qual fenómeno e processo complexo, é preciso a conjugação de opções que estejam à altura de dar uma resposta cada
vez mais global[2]:
eis a tarefa da política, enquanto assenta na dignidade da pessoa
humana e da mesma se torna garante, dentro dos parâmetros
de um grupo social e cultural específico.
De facto, «a globalização é um processo de
integração; não é realístico enfrentá-la com enfoques sectoriais muito diversificados. Não se
pode obter uma globalização justa apoiando-se numa
série de decisões diversificadas sobre questões como
o comércio, as finanças, o trabalho, a educação ou a
saúde, concebidas e aplicadas indepentemente. Um processo de integração precisa de soluções integradas e, obviamente, de políticas integradas»[3].
Enfim, a globalização da
solidariedade e da fraternidade deve impregnar todos os sectores cujos efeitos
de uma globalização desmoralizante e opressora, ávida do lucro egoístico, possam criar fogueiras acesas de injustiças
e violação de tantos direitos do homem, que mantêm
muitas pessoas e tantos povos do mundo reféns de uma condição de subdesenvolvimento em estado crónico avançado.
Para os cristãos, a globalização da solidariedade e da fraternidade não se
deve limitar a discursos teóricos ou a conceitos, mas
deve transformar-se em mecanismo de desenvolvimento baseado na caridade evangélica:
somos todos irmãos e ninguém tem o direito de privar o outro da
sua dignidade, seja ele quem for. É aqui onde os cristãos,
sobretudo aqueles que desempenham funções públicas,
mas também gestores, empresários e empreendedores,
consagrados, agentes de fiscalização a nível financeiro, económico e político, são desafiados a dar um novo rosto de fraternidade e
de ética às instituições e às relações
entre pessoas, povos e culturas. Não basta a contestação, não basta dizer “no global” – slogan de muitas associações e
movimentos no-global – mas é preciso identificar os pontos fracos de tal fenómeno e injectar-lhe um remédio capaz de gerar novas oportunidades para a
construção de relações humanas sadias.
[1]
Cfr. CIV, 41-42.
[2] De acordo com Bauman,
nesta era de globalização, para além dos resultados positivos de que a mesma é
portadora, todos os problemas a ela subjacentes
são globais, ou seja têm origem global e da globalização tiram a seiva vital e, portanto, a sua resolução não pode ser
deixada apenas para as iniciativas locais (Cfr. Z. BAUMAN, Modus vivendi. Inferno e Utopia del mondo liquido, Bari, Laterza, 2007,
p. 27).
[3] J.
SOMAVIA, La sfida per una globalizzazione
più giusta, Genève, Organizzazione Internazionale del Lavoro, 2005, p. 12;
Cfr. também M. TOSO, La speranza
dei popoli. Lo sviluppo nella carità e nella verità. L’enciclica sociale di
Benedetto XVI letta e commentata da Mario Toso, Roma, LAS, 22010, p. 64.